
– Meu caro amigo, andei por muitas camas e coxas, descobri o que é o amor e venho contar-te.
– Infelizmente, tu chegaste tarde demais, pois já o aprendi de antemão. Metendo-te culosamente, achei-o entre nádegas. Haha.
– Vós conversais, mas só escuto uma voz. Que sabeis do amor senão o que ouvistes de bêbados num bar, frequentadores de prostíbulos e velhos pornográficos? E mesmo que soubésseis, não teríeis como dizer com clareza.
– (Descontentamento. Agita-se, levemente agressivo.)
– Calma, irmão. Não te irrites com tais ofensas. Onde já se viu o intelectual ensinar aos poetas e amantes sobre o amor?
– Justo, contudo não me conterei em ousar dizer o que aprendi. Um presente foi-me dado e não pretendo guardá-lo só comigo. Meus mestres foram os corpos, e não os livros, que a mim revelaram o mais íntimo dos segredos…
– Vê?! É um charlatão e canalha aquele que faz uso e divulgação do que não é seu como se seu fosse. Se te foi dado em comunhão privada, qualquer coletividade é perversão. Na verdade, dessas condutas ímprobas nunca duvidei de que fosses capaz.
– Provarei que estás errado, biltre! Mequetrefe, tu devias calar-te diante do que tenho a dizer. Talvez tua torpe e vil mente consiga adquirir alguma informação úmida de saliva, ao invés da secura das páginas que o doitor está acostumado.
– Ânimos calmos, senhores!
– Pois bem, blasfemas para mim que eu desejo ouvir-te, a fim de desmascarar-te duma vez por todas.
– Blasfêmia? Tu estás indo longe demais. Não me seguro, parto tua cara.
– Coxo infiel!
– Não, A., não!
(A cena se interrompe. Entra um gato.)
– Pede mais uma e põe na conta.
– Hahaha, não me venhas com essas paspalhices. Tu nunca me pagarás, bem sei.
– É a vez do novato.
– Novato só se for neste bar, ou melhor, nesta mesa. Sinto que já estive aqui antes.
– Estavas tão bêbado que nem recordas. Deves ter aparecido com raparigas e ido embora com rapazes! Hahaha.
– Ou com aquele cão vadio, companhia dos ébrios sem amantes nem equilíbrio.
– Se aquilo é um cão eu sou tua mãe. Hahaha.
– Hahahah.
– Este gato está aqui desde o início da briga, ele viu tudo, é testemunha de tudo, sabe tudo. Pelo silêncio deve estar pensando. Pensamento de gato.
– Tu não serias minha mãe, tu és feio e gordo, além do que minha mãe é pura. Sempre será pura. Ao contrário de você, sujo desde berço.
– Claro, sempre pura, menos com teu pai. Hahaha.
– Sim, mães podem ser devassas com os pais! Hahahhaha.
– Aquele gato mia com ritmo, soa… é música.
– Só com os pais.
– Só comigo! Hahahah.
– Só comigo! Hahahah.
(O gato sai.)
– Como faço para voltar daqui?
– É muito simples de carro, se não estivesses de porre.
– E possuísses um carro. Hahahah.
– E tu, A., como vais voltar?
– Acho que o gato falou comigo.
– Pare disso! Devo estar mesmo desesperado para perguntar-te algo. Nem consegues dar rumo às ideias, quanto mais para casa. Vem, levarei-te hoje, mas não cries costume, tenho mais o que fazer do que cuidar de marmanjos.
– O gato me contou o segredo do amor.
– De novo com esta ladainha?!
– Ah, ainda é noite, temos tempo. Deixa-o falar.
– Ele me disse, mas eu não posso revelar. Não é que não queira (ou que queira), não saberia como. Só de pensar a respeito, sinto que traio a lembrança do gato.
– Esquece este maldito gato e vamos, ou deixo-te aqui aos mendigos e ladrões.
– Diz, o que ele te contou?
– Não posso dizer e não posso esquecer o gato. Ele é a lembrança, a coisa dita, o que aprendi com ele, o que antes veio e ainda virá. Para ser sincero, sinto que sou o gato de alguma maneira.
– Meu Deus! Como isso foi acontecer?! Não havia apenas cerveja naquele copo, só pode ser. Tu não aprendeste nada hoje, não é mesmo? Estás a caçoar de mim. Não vês que estou cansado, que desejo e preciso voltar para casa? Tu não tens o direito de fazer-me de bobo, se não sou eu, talvez estivesses preso agora, ou até pior!
– Eu já imaginava isso de vós. Um não dá ouvidos, o outro quer porque quer ouvir. Nem um, nem outro estão aptos a perceber que não se trata de vontade. Eu não quis gato, o gato quis-me. Talvez seja mais uma questão de coragem do que qualquer outra coisa. Coragem e sinceridade para assumir o que já é nosso. Foi nosso de presente. Será nosso cárcere privado.
– Sê o que quiser, eu me vou.
– Faz uma boa viagem. (Sorriso sincero)
– Espera, se tu não nos podes dizer o que o gato contou-te, pelo menos diga-nos como foi?
– Parai já com isso!
– Bem, o que te posso dizer é que os gatos sabem amar. Cada aproximação é cautelosa. O olhar sempre se mostra: interessante e interessado. Da escuridão saem, para a escuridão voltam. Afiam as garras em quem confiam.
– Não entendi.
– Jesus, o que fiz para merecer isso?
– Tudo bem. Não é para entender. É para guardar. Para aguardar.
(Um outro gato aparece rapidamente e logo some)
– Malditos sejam todos os gatos!
– Que mais?
– Só isso.
– Só?! Não há mais o que tu possas contar?
– Não.
– Qualquer coisa?
– Não. (Sorridente. De sorriso sincero)
– E o que eu devo fazer com o que tu me disseste?
– O que bem desejas fazer.
– Podemos ir agora?
– Tenho, pois, algo para ti.
– Quero dormir. Quero morrer sem estes por perto!
– O que tens para oferecer-me?
– Ofereço-te simplicidade. Traga a tua e poderemos ser amigos. Traga-me tua complexidade de peito aberto e seremos amantes.
– (Novamente o sorriso sincero.)